Sentimentalismo indecifrável

Antes de ti, doente era minh’alma pelo ópio poético de dias intermináveis. Um mecanismo de desastres da psique, uma engrenagem com volantes falsos; um vagão vazio de pessoas, abarrotado de vivências incompletas e amores mais sortidos do que balinha colorida de moleque. Um trem sem freio vagando pelo obscuro do meu mundo, carregando gente que desprezo, arraigada às lembranças não mais adormecidas, lascas de madeira sobre o piso da sala, cacos de vidro que escorrem de olhos aflitos. São agonias constantes e derradeiras de uma alma que ainda se afoga em pratos mal sucedidos, de dores ainda latentes sob a epiderme machucada.

Meus olhos se perdem na imagem dos campos cobertos de flores sem hastes, que ao mais suave dos toques desprendem-se do invisível e bailam orgulhosas pelo ar – visões de cadafalsos poéticos carregados de sentimentalismo indecifrável. São orações sem fé, abarrotadas de medo, necessidade da alma de um tolo apaixonado por damas e camélias, perdido entre a insegurança de dias sombrios e o sol negro que se espalha pela trilha de girassóis sem direção, sem sentido. Vou cambaleando através do lavor duma vida parada, cheia de altos e baixos, ainda assim paralisada por um fio de medo que não se quebra mais. Tenho crimes perfeitos escondidos em minha bagagem, segredos de um jovem com seus vinte e poucos anos de glória miserável, de bocas vencidas e carnes usadas. Esse é o ópio da minha poesia, uma clandestinidade de sentimentos que atravessam a fronteira para viver ilegalmente em meu mundo perfeito.

Ao toque sutil da morfina perco-me em viagens latejantes e numa noite cheia de brilhantes estrelas, abro o vagão dos meus medos e, um a um, vou esfaqueando-os e jogando pelo caminho para que outro vagabundo de coração tente reanimá-los e protegê-los. Cansei de perder os dias trabalhados, prefiro agora beber o meu café preto, sem açúcar, por favor, sentado à beira das minhas memórias que anseiam uma ação completa vinda de mim, desse meu corpo fadigado. Destarte, escolho permanecer em silêncio, bebericando da minha negritude amarga, encarando os olhos nervosos desses cidadãos da minh’alma, vertigens e devaneios de um ópio de palavras. Adoração de fantoches com sentimentos de madeira. Essa brincadeira macabra de descobrir até quando suportarei as peripécias da vida. Tolos são aqueles que ainda acreditam que alma sofrida não move moinhos.

Mais um pouco de café, por favor.

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