QUARENTA E UM QUILÔMETROS

O que são 41 km?

Para muitos,

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apenas medida de comprimento. Para outro tanto de pessoas, nada viria à mente. Mas pra mim, é distância.

Uma distância de 41km é estar longe de olhos que escondem um menino-homem. É ter sede e vontade. É ter cura para as feridas feitas pelo medo. É não criar expectativas – porque se vive em um mundo real, de dores reais, de lágrimas reais e que tudo pode ser nada – mas que se pode sonhar em 41km.

Distância de um coração bondoso. Distância de uma beleza externa admirável e de uma beleza interna tão cativante, tão convidativa e de cores que meus olhos não descrevem. Distância de um universo que quero descobrir, que eu quero encontrar vida, um universo onde eu possa habitar; um universo onde acolha meu corpo, onde seu DNA alienígena se funda às minhas células e habite em mim, no meu íntimo. Que se revista da minha pele, que a sinta por inteira.

Em 41km: corpos distantes e almas próximas. Estão próximas? Querem estar próximas?

Vamos diminuir a distância das almas? Vamos diminuir esses 41km?

Tornou-se perceptível o meu egoísmo por você.

Anseio desesperadamente ter seu dia, suas horas, todos os segundos que rodeiam seu existir; ter até mesmo seu sol por inteiro, dominar as nuvens do seu céu, estender a manta dos meus braços sobre as estrelas que cobrem sua noite. Posso optar em ser sua sinfonia ou a bandinha na esquina, que ainda toca as mesmas marchinhas dos carnavais de Veneza. Mas posso ser o seu silêncio, a palavra que jamais dirá; me transformar em seus pensamentos, ocupar espaços ainda desconhecidos dentro de você. Quero cuidar de seu coração, mas de dentro pra fora, arrumar os móveis da sua sala, trocar as fotos penduradas em sua parede tomada por um branco fúnebre, pois eu quero ser os olhos que lhe observarão nas horas solitárias, quando andará de um lado a outro da sala querendo encontrar uma saída para a solidão. Eu estarei em tudo que você permitir – e além disso. Preciso dominar territórios em você, redescobrir seu sorriso, seus beijos e os mais impuros toques, porque eu preciso não apenas ter você, mas ser exatamente você.

Isso não é amor, é saudade.

Eu tinha medo, agora não mais. Sei que estou destinado a tropeçar em uma fotografia nossa, ou alguma carta de amor escrita por você nos tempos bons que não voltam. Eu continuarei aqui, não esperando que tudo retorne, que o vento sopre ao favor de um amor que não existe mais, porque sejamos francos, isso não é amor, é saudade. E quando separamos saudade de amor, temos um problema, temos isolamento e solidão. E apesar de tudo, eu estou bem, meu corpo diz isso. O corpo é o primeiro a se adaptar com a ausência de corpos, de dedos, de boca, mas o coração? Esse teima em dizer que era melhor com você aqui, que estávamos mais felizes, ou melhor, que éramos felizes. Agora não sei mais.

Viver sem notícias suas é sufocante. Essa ausência de verdade sobre você, alimenta a minha alma, e isso proporciona alucinações de você em algum baile, dançando ao lado de uma outra pessoa tão bonita que faz meus olhos lacrimejarem; seus lábios sendo acariciados por outros lábios, enquanto os meus permanecem secos, sendo umedecidos somente pela ponta da língua que escorrega de um lado a outro, manifestando essa fome que tenho por você. Somente por você. Ela seria uma intrusa em nosso castelo? Ou serei eu a pessoa intrusa entre vocês? Por não possuir mais certezas, calo-me e continuo aqui, tendo a lua como testemunha da minha luta para não pensar em você, para vencer o inimigo do meu coração e da minha memória, tentando de todas as formas, simplesmente não pensar em você. Aqui, sentado em nossa ex poltrona, componho palavras suaves para lhe dizer que tudo isso é saudade, mas não amor.

Espero notícias suas, meu amor, não mais só saudade.

Encontramos amor em um lugar sem saída

É como se você estivesse gritando e ninguém pudesse ouvir. Você quase sente vergonha de que alguém possa ser tão importante. Que sem essa pessoa você se sente um ninguém, ninguém nunca entenderá quanto dói. Suas esperanças acabam, como se nada pudesse salvá-lo. E quando tudo acaba você quase deseja que pudesse ter todas as coisas ruins de volta, para poder ter também o que era bom.

Mas acontece tipo assim:

Lembro do seu rosto, do seu abraço, do seu cheiro, do seu olhar, do seu beijo e começo a sorrir, é assim mesmo, automático, como se tivesse uma parte do meu cérebro que me fizesse por um instante a pessoa mais feliz do mundo, mas que só você, de algum modo, fosse capaz de ativar. Eu sei, é lindo. Mas logo em… seguida, quando penso em quão longe você está sinto-me despedaçar por inteira. Sabe a sensação de arrancar um doce de uma criança? Pois é, sou essa criança. E dói. Uma dor cujo único remédio é a sua presença. Então sigo assim, penso em você, sorrio, sofro e rezo, peço pra Deus cuidar da gente, amenizar essa dor e trazer logo a minha cura.

Caio F.

Alguém me salva?

Alguém tira a dor que grita implorando para que eu desista? Eu sei que não é tão simples, fácil e de mão-beijada receber ações boas de outras pessoas, mas estou suplicando ajuda. Eu preciso disso mesmo, preciso de gente que se preocupa.. Preciso de gente que ajuda. Que chora, que implore para que eu fique. De gente que me aceite, que saiba que eu também preciso cuidar de mim. Preciso de gente para se salvar.

Sabe de uma coisa?

Não, você não sabe. Vou te contar. Eu ando tão sensível. Precisando assim de uma palavra suave, de um gesto inesperado – e belo. Você consegue me surpreender de um jeito bom? Diz que sim, preciso tanto de você. Que coisa louca essa: a gente precisa de alguém. Mas, sabe, a gente sempre precisa de alguma coisa que nos coloque no eixo. Ando meio fora dos trilhos, se é que você me entende. Andei pensando na vida – é, sei que isso dá calafrios (…)

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor:

Chore o quanto quiser, mas não brigue comigo. Se não quiser chorar, não chore; Se não conseguir chorar, não se preocupe; Se tiver vontade de rir, ria; Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão; Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me; Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam; Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo… E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase: – “Foi meu amigo, acreditou em mim e sempre me quis por perto!” Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. Gostaria de dizer para você que viva como quem sabe que vai morrer um dia, e que morra como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Mas, se eu morrer antes de você, acho que não vou estranhar o céu. “Ser seu amigo, já é um pedaço dele…

Chico Xavier

Meu Mundo

Não pertenço mesmo. Pertenço ao meu mundo, perdido em meus devaneios, amores, completudes insensatas, loucura de poeta romântico com alma carregada. Sou uma partícula de poeira estrelar que caiu aqui sem querer, hoje, cava palavras para imitar as constelações, as mesmas que um dia a elas pertenci. Tenho aqui comigo, guardado em segredo, a cápsula de volta, mas descobri que não pertenço nem a via láctea nem a Terra, estou vagando no firmamento em busca da poesia que jamais morrerá. Ai, Deus, se eu fosse eterno…

Thomas S.


Sobre os Horizontes

Há dois horizontes em nossa vida: o primeiro, batizei de saudade, o segundo de agonia. Saudade, quem sabe, o amor torne a florescer; agonia de te olhar nos olhos e desejar tua boca. Horizontes que todas as noites se cruzam, lutam entre si para saber qual dos dois dominará meu dia seguinte. Essa saudade mal dormida que caminha por entre a esperança dos tempos que hão de chegar, deixando fruta na cesta para alimentar um passado que se foi e um futuro que ainda não nasceu. Por alguns minutos, me perco com a agonia, conto histórias para ela dormir, mas teima comigo, deixando o gosto amargo das lembranças se misturar com meus sentidos – um doce amigo que dispenso. São virações poéticas de uma alma incompreendida, talvez velha e por isso ranzinza. Não quero mais horizontes com pôr-do-sol, ou cantigas à beira do mar. Prefiro mesmo, te juro, dormi sobre a grama do nosso quintal, eternizar essas conversas intermináveis e imaginativas de nós dois. E vão, então, se cruzando nossos horizontes, sofridos ou inacabados, flores com espinhos não retirados, arrancando gotas de sangue das nossas fracas e adormecidas tentativas.

Há dois horizontes, hoje, em minha vida: nós e o tempo.

Sentimentalismo indecifrável

Antes de ti, doente era minh’alma pelo ópio poético de dias intermináveis. Um mecanismo de desastres da psique, uma engrenagem com volantes falsos; um vagão vazio de pessoas, abarrotado de vivências incompletas e amores mais sortidos do que balinha colorida de moleque. Um trem sem freio vagando pelo obscuro do meu mundo, carregando gente que desprezo, arraigada às lembranças não mais adormecidas, lascas de madeira sobre o piso da sala, cacos de vidro que escorrem de olhos aflitos. São agonias constantes e derradeiras de uma alma que ainda se afoga em pratos mal sucedidos, de dores ainda latentes sob a epiderme machucada.

Meus olhos se perdem na imagem dos campos cobertos de flores sem hastes, que ao mais suave dos toques desprendem-se do invisível e bailam orgulhosas pelo ar – visões de cadafalsos poéticos carregados de sentimentalismo indecifrável. São orações sem fé, abarrotadas de medo, necessidade da alma de um tolo apaixonado por damas e camélias, perdido entre a insegurança de dias sombrios e o sol negro que se espalha pela trilha de girassóis sem direção, sem sentido. Vou cambaleando através do lavor duma vida parada, cheia de altos e baixos, ainda assim paralisada por um fio de medo que não se quebra mais. Tenho crimes perfeitos escondidos em minha bagagem, segredos de um jovem com seus vinte e poucos anos de glória miserável, de bocas vencidas e carnes usadas. Esse é o ópio da minha poesia, uma clandestinidade de sentimentos que atravessam a fronteira para viver ilegalmente em meu mundo perfeito.

Ao toque sutil da morfina perco-me em viagens latejantes e numa noite cheia de brilhantes estrelas, abro o vagão dos meus medos e, um a um, vou esfaqueando-os e jogando pelo caminho para que outro vagabundo de coração tente reanimá-los e protegê-los. Cansei de perder os dias trabalhados, prefiro agora beber o meu café preto, sem açúcar, por favor, sentado à beira das minhas memórias que anseiam uma ação completa vinda de mim, desse meu corpo fadigado. Destarte, escolho permanecer em silêncio, bebericando da minha negritude amarga, encarando os olhos nervosos desses cidadãos da minh’alma, vertigens e devaneios de um ópio de palavras. Adoração de fantoches com sentimentos de madeira. Essa brincadeira macabra de descobrir até quando suportarei as peripécias da vida. Tolos são aqueles que ainda acreditam que alma sofrida não move moinhos.

Mais um pouco de café, por favor.

Não quero perder nada

Eu poderia ficar acordado só para ouvir você respirando. Observar você sorrir enquanto está dormindo. Enquanto está longe e sonhando. Eu poderia passar minha vida nessa doce rendição. Eu poderia continuar perdida nesse momento pra sempre. Todo momento que passo com você, é um momento que eu valorizo. Não quero fechar meus olhos. Eu não quero pegar no sono. Porque eu sentiria sua falta. E eu não quero perder nada. Porque mesmo quando eu sonho com você, o sonho mais doce não vai ser suficiente. Eu ainda sentiria sua falta. Repousando perto de você, sentindo seu coração bater, e imaginando o que você está sonhando. Imaginando se sou eu que você está vendo. Então eu beijo seus olhos e agradeço a Deus por estarmos juntos. Eu só quero ficar com você, neste momento… pra sempre. (…) Não quero perder um sorriso. Não quero perder um beijo. Eu só quero ficar com você. Bem aqui, com você. Apenas assim. Eu só quero te abraçar forte. Sentir seu coração tão perto do meu. E só ficar aqui nesse momento, por todo o resto dos tempos.  — Aerosmith

Eu adoro suas mentiras

Você diz que acorda sem pensar em futuro, que come depressa para não perder tempo, que não olha para os carros enquanto atravessa a rua. Você passa o dia inteiro fazendo por fazer, aprendendo para nada. Odeia todas as sinalizações e as esperas que é obrigado a aturar. Suas horas correm no momento em que você segura a piada interna dentro da sua cabeça. Depois disca meu número e me conta sobre amizades, trânsito, irritações. E vai agindo desse jeito normal que me faz ficar distante muitas vezes. Então você ri no meu ouvido, conta a novidade do dia, lembra de insinuar que está com saudade. Decide que agora vai ser mais natural, mais flexível, mais sorridente. Fala para mim que descobriu, há algum tempo, que é feliz. Então eu me embalo em você e dou risada junto, não dá pra fazer nada. Mas depois de tudo isso, de parecer que nossas vidas são completamente inacessíveis e que não temos nenhum pontinho em comum, você corta a ligação. Espera muito tempo só para no final da noite me chamar de volta. No fim, depois de ter sustentado a fantasia de dia, depois de ter se arranhado por ser o que não é, depois de ser desgastado pelas pessoas que acreditam em você, fica em silêncio do outro lado. Abre a ferida para admitir que é carente como todo mundo, me pede colo. É aí que eu descubro que te amo demais. Assim, completamente da maneira que você não quer se mostrar, é que eu me encontro em você, pelos seus pontos fundamentais de vida amarga. E me sinto segura e decidida de novo. Foi com a sua ilusão que escolhi ficar. Não por ser uma ilusão boa, mas por esconder uma verdade que combina com as minhas necessárias quedas. Eu te amo pelo abatimento.

Forasteiro

É primavera, curam tristezas, tudo muda demais por aqui, Forasteiro, tua distancia, se eu sentisse, poderia mudar, mas não vou.
Por onde é que andarás, só me diga e eu prometo, esse rio descansará
Você frio, perto da noite, longe de mim e eu mal sei, onde estou, cruzei vilas, me perdi, além das ruas, nossa historia não mudou. E tanto eu tenho pra dizer, se eu só pudesse te olhar, e se tens em mim o teu revolver, hei de te próprio disparar
Por onde é que andaras?

Thiago Pethit

Te Olhando

Você me diz que eu te olho profundamente. Desculpa, tudo que vivi foi profundamente.
Eu te ensinei quem sou e você foi me tirando os espaços entre os abraços, guarda-me apenas uma fresta. Eu que sempre fui livre, não importava o que os outros dissessem.
Até onde posso ir para te resgatar?
Reclama de mim, como se houvesse possibilidade de eu me inventar de novo. Desculpa, desculpa se te olho profundamente, rente à pele a ponto de ver seus ancestrais nos seus traços, a ponto de ver a estrada antes dos teus passos. Eu não vou separar minhas vitórias dos meus fracassos!
Eu não vou renunciar a mim; nenhuma parte, nenhum pedaço do meu ser vibrante, errante, sujo, livre, quente. Eu quero estar viva e permanecer te olhando profundamente!

Ana Carolina

Ontem chorei

Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas.Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. Ponho-me a caminhar sob sol e vento. Vou ali ser feliz e já volto.

Caio F.

Tudo o que eu quero

Eu quero é viver, esquecer os problemas, ou boa parte deles. Sorrir sem ter motivo, estar perto de quem eu amo, errar, acertar, aprender, criar, me divertir. Sonhar, realizar, desejar, cuidar, ter carinho, dar carinho, se doar. Ter amigos de verdade, falar bobeira, ouvir a mesma música sem parar, rir lembrando do passado e não chorar pelo que passou. Quero não ter medo, quero ser livre. viver feliz, curtir as pequenas coisas da vida. Lamentar pelo que realmente importa ou nem lamentar, já não se pode mudar tudo. Ouvir o que mereço ouvir, quero fazer acontecer, quero cuidar de mim. Só apenas seguir meu destino de queixo erguido, de peito aberto sendo eu mesmo sem me importar com que os outros pensam, sem me importar com o que os outros falam. Afinal, os outros, são só os outros.

Para a minha Mãe

Onde você está? Eu acordei gritando por você na noite, mas você não veio me acalmar. Mãe eu estou morrendo de saudade. É um suplício olhar os seus olhos tristes, mas é ainda mais grave não os tê-lo para olhar. Eu preciso das suas músicas antigas, do seu sorriso lindo, do seu cheiro doce, dos seus sermões repetitivos, do seu jeito de dizer que chegou. Mãe, alguém está lá em casa destruindo tudo o que é meu e seu. E Mãe, perto desse alguém eu não sinto nada. É horrível odiar. Eu preciso dos seus ensinos. Antes que o controle fuga e eu me corte com as unhas outra vez. Eu tenho medo de tocar em mim, e ouvir apenas o eco ressoando, provando de uma vez por todas que eu não tenho mais nada para sentir. É o amor Mãe , o amor que se foi dessa casa , que sou eu.

Paredes Vazias e Cômodos Cheios de Segredos.

A noite era longa demais, sussurrei segredos às paredes e elas estavam me engolindo a cada respirar, cada tijolo, cada parte coberta por pintura estava me observando, esperando que eu fizesse apenas mais uma declaração. Não suporto guardar um corpo vazio por cima da cama. O meu espírito vaga pelos cômodos e volta para o mesmo lugar. Pensei em quebrar as paredes, mas o sofá escutou versos tenebrosos de minha boca enquanto eu adormecia, as almofadas me perseguiam e a escrivaninha me atirava o seu corpo em qualquer esquina. 

O violão me declarava suas frases enquanto meus pés faziam a batida de meu peito aflito. Eu estava enlouquecendo aos poucos, enquanto às cortinas com o vento assoviava o meu passado. Não vou sair dessa casa, mas ela mesma me entrega. As janelas, elas se batem contando com gotas de chuva o meu lado mais doce, a minha entrega mais cruel. As portas estão trancadas do lado de fora, eu estou perdida, o lençol está tentando me enforcar.

O canto da parede é frio, ele está pálido, nada irá me ajudar. Apoiada com a cabeça sobre os joelhos, até mesmo o tic-tac do relógio se pôs a me condenar. Ela repete as mesmas palavras, e o com ele me leva o tempo, as horas, os segundos e até mesmo este momento.